O primeiro rascunho como crime contra a humanidade
Todo primeiro rascunho deveria vir com aviso de conteúdo sensível. Não porque seja ofensivo, embora às vezes seja. Não porque seja perigoso, embora possa destruir a autoestima de um adulto funcional em menos de três parágrafos. Mas porque o primeiro rascunho é uma espécie de criatura recém-saída do pântano: respira, existe, tem alguma intenção de vida, mas ainda não deveria ser apresentado à sociedade. O erro está em achar que o primeiro rascunho precisa ser bom. Não precisa. Na verdade, quase desconfio de primeiros rascunhos bons. Eles parecem pessoas educadas demais em festa de família: alguma coisa estão escondendo. O primeiro rascunho é o lugar onde a frase nasce torta, o argumento manca, a metáfora pega fogo e o autor escreve “desenvolver melhor isso aqui” como quem deixa um bilhete para uma versão futura de si mesmo — uma versão que, evidentemente, também estará cansada. E tudo bem. Porque escrever não é produzir beleza imediatamente. Escrever é primeiro cometer um pequ...