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Morrer em uma cidade que não para: O ano em que morri em Nova York, Paris e The Mountain Goats

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Existe uma fantasia muito persistente de que uma viagem pode nos salvar. Não digo salvar no sentido turístico da coisa — descansar, conhecer lugares, tirar fotos, comer melhor, caminhar mais. Digo salvar num sentido quase religioso: sair de um lugar para que uma versão antiga de nós fique para trás. Como se bastasse atravessar o oceano para que a tristeza perdesse o endereço. Como se a depressão tivesse preguiça de passar pela imigração. Mas não é assim. A tristeza viaja junto. Talvez nenhuma música do The Mountain Goats diga isso de forma mais direta do que “Up the Wolves” . Há uma imagem ali que sempre me pareceu brutal: a de que existe um fantasma no fundo do armário, não importa onde você more. Essa é uma frase quase perfeita sobre a inutilidade parcial das fugas. Porque a gente costuma imaginar o trauma como uma coisa presa ao lugar. A casa antiga. O quarto antigo. A cidade antiga. O relacionamento antigo. Então, em algum ponto, parece lógico pensar: se eu sair daqui, se eu ...

O primeiro amor como uma ferida que aprende a escrever

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Imagem gerada pelo ChatGPT. Há livros que não parecem ter sido escritos para contar uma história. Parecem ter sido escritos porque uma história, depois de muitos anos, continuou batendo do lado de dentro. Mentiras que contamos , de Philippe Besson, me parece um desses livros. A trama começa com um tipo de assombração muito simples: um rosto. O narrador vê um homem jovem que lembra Thomas, seu primeiro amor, e essa semelhança abre uma porta no tempo. Não é uma lembrança organizada. Não é uma nostalgia educada. É uma invasão. De repente, o passado volta com a violência das coisas que nunca foram completamente enterradas. E talvez seja isso que mais me interessa no livro: a ideia de que o primeiro amor não termina exatamente. Ele muda de estado físico. Primeiro é corpo. Depois é ausência. Depois é memória. Depois, se houver sorte — ou condenação — vira literatura. Thomas não é apenas uma pessoa amada. Ele é também um lugar. Um lugar onde o narrador descobriu o desejo, o medo, a vergonha, ...

Nem todo milagre é bonito: o realismo mágico sem glamour de A cabeça do santo

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Gosto quando o realismo mágico não parece decoração da realidade. Quando ele não está ali para deixar o mundo mais bonito, mais luminoso, mais Instagramável. Quando o fantástico não aparece como um truque narrativo, mas como uma necessidade. Como se a realidade tivesse chegado ao seu limite e precisasse, por falta de opção, abrir uma rachadura para o impossível entrar. É isso que acontece em A cabeça do santo, de Socorro Acioli. O romance conta a história de Samuel, um jovem que, depois da morte da mãe, atravessa o sertão para cumprir uma promessa: encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Ele chega à cidade de Candeia, praticamente abandonado, faminto, ferido, sem dinheiro e sem lugar para ficar. Então encontra abrigo dentro da cabeça oca de uma estátua inacabada de Santo Antônio. Lá dentro, começa a ouvir vozes. Vozes de mulheres rezando ao santo casamenteiro. Vozes pedindo amor, casamento, destino, socorro. O romance foi publicado pela Companhia das Letras e a própria editora dest...

O Mapa não é o Território

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Uma das cenas mais curiosas de Infinite Jest  acontece em um campo de tênis. Um grupo de estudantes da academia Enfield joga um jogo chamado Eschaton. O campo é transformado em um mapa do mundo desenhado no chão. Cada jogador representa uma potência nuclear. Bolas de tênis são usadas como mísseis. Há regras complexas, cálculos, tratados, escalas de destruição. É um jogo meticuloso. Quase científico. Até que uma coisa simples acontece. Um dos jogadores esquece uma regra fundamental: o mapa não é o território. A frase, que vem da teoria semântica de Alfred Korzybski, significa algo muito simples e muito profundo ao mesmo tempo: qualquer representação da realidade — um mapa, um modelo, uma teoria — é apenas uma aproximação. Nunca é a própria realidade. No jogo Eschaton, os jogadores deveriam sempre lembrar disso. O mapa desenhado no chão representa o mundo, mas não é o mundo. Por isso, quando um ataque acontece em um ponto do mapa, os jogadores não devem reagir fisicamente como ...