Quando o narrador mente porque precisa sobreviver
Nem toda mentira na literatura é um truque. Às vezes, quando pensamos em narradores não confiáveis, pensamos em um jogo. O autor esconde uma informação, o leitor desconfia, as pistas aparecem aos poucos e, no final, descobrimos que fomos enganados. É uma máquina muito bonita, quase um relógio narrativo. Mas há outro tipo de mentira que me interessa mais. A mentira que não existe para enganar o leitor, mas para proteger quem está contando a história. Porque algumas pessoas não conseguem dizer a verdade de uma vez. Não porque sejam necessariamente más. Não porque sejam manipuladoras. Mas porque a verdade, em estado puro, talvez fosse insuportável. Existem narradores que mentem como quem coloca a mão na frente do rosto antes de apanhar. Mentem para diminuir o impacto. Mentem para reorganizar o passado. Mentem para continuar de pé. Penso, por exemplo, em certos narradores que contam a própria vida como se estivessem sempre tentando se absolver. Eles escolhem as palavras com cuidado d...