Quantas versões existem de uma mesma pessoa?
Há uma tendência curiosa quando tentamos lembrar de alguém: acreditamos que estamos falando da mesma pessoa, quando, na verdade, cada memória revela uma versão diferente dela. A mesma mulher pode ser mãe para um filho, irmã para alguém, amiga de infância, vizinha, colega de trabalho. Em cada uma dessas histórias ela ocupa um lugar diferente. Não porque estivesse fingindo ser outra pessoa, mas porque nenhuma vida cabe inteira dentro de um único olhar. Talvez seja por isso que escrever sobre alguém seja tão difícil. Não basta lembrar dos acontecimentos. É preciso aceitar que a nossa lembrança é apenas uma entre muitas possíveis. Ela é verdadeira, mas não é completa. Quando comecei a escrever la Margarita , descobri que não estava tentando reconstruir uma biografia. Estava tentando entender qual era a Margarita que existia nas minhas lembranças. E essa diferença mudou completamente a maneira como escrevi o livro. Durante muito tempo imaginei que memória fosse um arquivo. Hoje acho qu...