O espanhol, o português e a língua da mãe
Em la Margarita , o espanhol e o português não são apenas idiomas. Eles são território. São casa. São cicatriz. São aquilo que sobra quando alguém atravessa uma fronteira e percebe que o corpo chegou antes da linguagem. A língua da minha mãe não era exatamente o espanhol. Era uma mistura de espanhol entrerriano, português aprendido no susto, alemão herdado como ruído familiar, religião, insulto, carinho torto, comando doméstico e sobrevivência. Logo no começo do livro, Margarita se apresenta como alguém feita de duas geografias e duas línguas: “Eu que com estas mãos construí uma vida em dois países e duas línguas quando estudei de noite em uma turma mal frequentada para terminar a primaria e secundaria […] E sou eu e meu filho y nadie más.” Gosto muito desse “y nadie más”. Em português, “e ninguém mais” funcionaria. Mas não teria o mesmo peso. “Y nadie más” parece fechar uma porta com força. Parece uma mulher colocando o filho debaixo do braço e dizendo: daqui para fren...